﻿{"id":172,"date":"2007-04-11T10:45:30","date_gmt":"2007-04-11T13:45:30","guid":{"rendered":"http:\/\/relacoesraciais.cfp.org.br\/?p=172"},"modified":"2007-04-11T10:45:30","modified_gmt":"2007-04-11T13:45:30","slug":"jornal-brasil-de-fato-publica-artigo-sobre-10-anos-do-assassinato-do-indio-galdino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/relacoesraciais.cfp.org.br\/?p=172","title":{"rendered":"Jornal Brasil de Fato publica artigo sobre 10 anos do assassinato do \u00edndio Galdino"},"content":{"rendered":"<p>Antes de ficar inconsciente, perguntava para os m\u00e9dicos que o atendiam: \u201cPor que fizeram isso comigo?\u201d At\u00e9 hoje \u00e9 dif\u00edcil respond\u00ea-lo<\/p>\n<div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na madrugada do dia 20 de abril de 1997, o \u00edndio Galdino Jesus dos Santos, 44 anos, do povo Patax\u00f3 H\u00e3-H\u00e3-H\u00e3e, do estado da Bahia, dormia no ponto de \u00f4nibus de uma pra\u00e7a p\u00fablica de Bras\u00edlia. Tinha ido para a Capital com uma delega\u00e7\u00e3o de oito lideran\u00e7as de seu povo, com o objetivo de buscar apoio para as suas reivindica\u00e7\u00f5es no sentido de recupera\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, invadido por muitos fazendeiros.A terra tradicional dos Patax\u00f3 H\u00e3-H\u00e3-H\u00e3e \u00e9 denominada de Terra Ind\u00edgena Caramuru-Catarina Paragua\u00e7u, possui 53.400 hectares e foi demarcada em 1934.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Naqueles dias, uma marcha nacional do MST havia chegado \u00e0 cidade. Galdino participou da recep\u00e7\u00e3o aos sem-terra e de reuni\u00f5es destes com autoridades, inclusive com o presidente da Rep\u00fablica da \u00e9poca, Fernando Henrique Cardoso, para colocar tamb\u00e9m as reivindica\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Galdino dormia no ponto de \u00f4nibus porque chegou tarde das reuni\u00f5es na pens\u00e3o onde estava hospedado. A dona da pens\u00e3o se recusou a abrir a porta para ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eram cinco horas da manh\u00e3 quando Galdino acorda completamente em chamas. Socorrido por jovens que voltavam de uma festa, foi levado para o hospital. Tinha queimaduras em noventa e cinco por cento do corpo. Entrou logo em coma e faleceu \u00e0s duas horas da manh\u00e3 do dia 21 de abril de 1997. Antes de ficar inconsciente, perguntava para os m\u00e9dicos que o atendiam: \u201cPor que fizeram isso comigo?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Essa pergunta, at\u00e9 hoje \u00e9 dif\u00edcil de ser respondida. Essa pergunta sacudiu a sociedade brasileira na \u00e9poca, chocada com o horror da crueldade que ciclicamente nos atinge, \u00e0s v\u00edtimas em primeiro lugar e, em seguida, a todos n\u00f3s, em nossa auto-imagem de humanidade e civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os autores da barb\u00e1rie foram cinco jovens de classe m\u00e9dia brasiliense, um deles menor de idade. Numa noite vazia, resolveram atear fogo numa pessoa que dormia indefesa para, segundo declarou o menor, se divertirem. Cometido o crime, fugiram, mas um outro jovem que passava por ali, um chaveiro, anotou o n\u00famero da chapa do carro dos assassinos e o entregou \u00e0 pol\u00edcia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois da brutalidade, os criminosos foram para casa dormir, como se nada tivessem feito. Foram identificados e presos. Diante da como\u00e7\u00e3o nacional ainda quiseram se defender, com o seguinte argumento: \u201cN\u00e3o sab\u00edamos que era um \u00edndio, pens\u00e1vamos que era s\u00f3 um mendigo.\u201d Ou seja, em mendigos \u00e9 permitido atear fogo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Dez anos depois<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Podemos olhar para este crime hediondo dez anos depois, e nos interrogar novamente: \u201cPor que fizeram isso com ele?\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Continua dif\u00edcil responder a essa pergunta \u2013 e os crimes b\u00e1rbaros n\u00e3o cessaram.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foram in\u00fameros os mendigos assassinados, muitos atrav\u00e9s do fogo, em pra\u00e7as e ruas das nossas cidades, durante as noites dos \u00faltimos dez anos. Suspeitos foram v\u00e1rios: policiais; seguran\u00e7as; comerciantes; quadrilhas; apenas assassinos. Identificados e punidos? Nem um sequer nos vem \u00e0 mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na verdade, temos not\u00edcias desde 1984, de moradores de rua agredidos e assassinados, por grupos que atuam durante a noite, nas capitais e cidades do interior do Brasil. Nos dias 19 e 22 de agosto de 2004, sete moradores de rua de S\u00e3o Paulo foram brutalmente assassinados enquanto dormiam. Os principais suspeitos foram policiais que trabalhavam fornecendo seguran\u00e7a para comerciantes do centro da cidade. Em 2006, moradores de rua de Belo Horizonte foram agredidos com fogo. No dia 21 de mar\u00e7o de 2007, em Garanhuns, no agreste pernambucano, um adolescente lan\u00e7ou gasolina e em seguida ateou fogo em dois moradores de rua, enquanto dormiam na varanda de uma casa abandonada: um menino de rua de 16 anos e um adulto, de 38 anos, foram internados com ferimentos graves.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O caso Galdino e o drama ind\u00edgena<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quanto aos assassinos de Galdino, encontram-se em liberdade condicional desde o final de 2004. O menor n\u00e3o chegou a ser preso. Os maiores Tom\u00e1s Oliveira de Almeida, Eron Chaves Oliveira, Max Rog\u00e9rio Alves e Antonio Novely Cardoso trabalharam na pris\u00e3o, raro privil\u00e9gio concedido a poucos na situa\u00e7\u00e3o deles, e conseguiram abreviar a pena. Trabalharam e estudaram fora do pres\u00eddio, estando em regime fechado, privil\u00e9gio concedido pela Justi\u00e7a, embora totalmente ilegal. Muitas vezes foram vistos nas noites de Bras\u00edlia, bebendo com amigos, quando deveriam estar encarcerados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitos ind\u00edgenas foram assassinados, desde aquele abril de 1997 at\u00e9 abril de 2007: exatamente 257 ind\u00edgenas em todo o pa\u00eds, segundo dados do Setor de Documenta\u00e7\u00e3o do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio, o CIMI.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre esses 257 ind\u00edgenas, temos crian\u00e7as, jovens, adultos e idosos: temos lideran\u00e7as assassinadas em lutas pelo territ\u00f3rio; temos ind\u00edgenas assassinados por outros ind\u00edgenas; temos idosos assassinados por seguran\u00e7as de fazendas; temos jovens assassinados por jagun\u00e7os a mando de fazendeiros; temos adultos assassinados em brigas na cidade; temos crian\u00e7as assassinadas por crueldade; temos mulheres violentadas e assassinadas por brancos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Este n\u00famero 257 encerra um grande e secular drama, o drama dos povos ind\u00edgenas em nosso pa\u00eds, composto por muito sofrimento, vivido por muitos povos e por muitas comunidades ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muitas dessas mortes foram parecidas com a de Galdino Jesus dos Santos: numa cidade do Rio Grande do Sul, assassinos, encobertos pela noite, causaram a morte violenta de um idoso ind\u00edgena; na \u00e1rea rural do Mato Grosso do Sul, na beira de uma estrada, na porteira de um acampamento, um tiro covarde dado \u00e0 dist\u00e2ncia, por seguran\u00e7as de fazenda, atingem um lider ind\u00edgena, sem nenhuma condi\u00e7\u00e3o de defesa. Todos esses crimes seguem rigorosamente impunes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois de dez anos, a situa\u00e7\u00e3o da Terra Ind\u00edgena Caramuru-Catarina Paragua\u00e7u, pela qual lutava Galdino, encontra-se parada no Supremo Tribunal Federal. Ela \u00e9 objeto de uma a\u00e7\u00e3o de nulidade de t\u00edtulo dos fazendeiros que invadiram aquela terra ind\u00edgena com a coniv\u00eancia do Governo do Estado da Bahia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Povos Ind\u00edgenas e Povo da Rua<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A morte do \u00edndio Galdino enla\u00e7a dois dramas: o dos povos ind\u00edgenas e o do povo da rua. O que possuem em comum esses povos \u00e9 a sua radical humanidade, sua caracter\u00edstica fr\u00e1gil, exclu\u00edda de toda utilidade para um sistema onde apenas a mercadoria e o \u201cser mercadoria\u201d contam. Como n\u00e3o cabem no sistema do Capital, este tenta elimin\u00e1-los, quer seja pelos \u201cseguran\u00e7as\u201d urbanos, quer seja pelos \u201cseguran\u00e7as\u201d e jagun\u00e7os rurais. Quer seja, tamb\u00e9m, pelo preconceito, \u00f3dio e desprezo, enraizados pelo mesmo sistema em parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira e que se manifestam em nosso cotidiano, em m\u00faltiplas formas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que se coloca como um desafio para todos n\u00f3s \u00e9 compreender o que acontece de t\u00e3o grave em nossa sociedade, para que seres humanos sejam submetidos sistematicamente \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0 morte com caracter\u00edsticas de barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Torna-se urgente compreender e mudar o destino de nossa sociedade, rompendo com um sistema econ\u00f4mico e com uma ideologia que sacrificam aqueles que n\u00e3o cabem na l\u00f3gica do Capital.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Torna-se necess\u00e1rio construir uma outra sociedade, onde povos ind\u00edgenas e povo da rua, onde todos possamos viver integralmente, livremente, nossa humanidade comum.<\/p>\n<p>Paulo Maldos \u00e9 psic\u00f3logo e\u00a0assessor pol\u00edtico do CIMI (<em>Conselho Indigenista Mission\u00e1rio<\/em>)<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00cdndio Galdino, dez anos depois<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-172","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/relacoesraciais.cfp.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/172","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/relacoesraciais.cfp.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/relacoesraciais.cfp.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/relacoesraciais.cfp.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/relacoesraciais.cfp.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=172"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/relacoesraciais.cfp.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/172\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/relacoesraciais.cfp.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/relacoesraciais.cfp.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/relacoesraciais.cfp.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}